SÃO PAULO - De uma pequena pouquíssimo comentada e negociada na Bovespa para uma das grandes estrelas desde começo de 2017: a ascensão meteórica de quase 200% em 2 meses das ações da CSU CardSystem pegou muita gente de surpresa e deixou uma interrogação enorme na cabeça de muitos investidores. Mas a partir desta sexta-feira (10), essa dúvida pode começar a ser mais esclarecida, já que a prestadora de serviços de tecnologia divulgou os resultados de 2016 e, consequentemente, saiu do período de silêncio.

O InfoMoney conversou com exclusividade na manhã desta sexta com dois diretores da CSU: Renata Oliva (diretora de relações com investidores) e Ricardo Ribeiro Leite (CFO, ou Chief Financial Officer). Eles exaltaram o "turnaround" operacional que a companhia vem passando nos últimos e que ficou evidente no último semestre de 2016, com a empresa entregando sólidos resultados operacionais mesmo com a perda de um cliente importante no período, consequência da ampliação da atuação da empresa nos 4 principais segmentos - CSU CardSystem, CSU MarketSystem, CSU Contact e CSU ITS -, explica Renata. Como consequência, as ações têm tido muito mais procura na Bovespa, provocando um forte aumento no volume e nos preços - influenciado ainda pela forte distribuição de proventos anunciado pela empresa ao final de 2016.

Para 2017, o otimismo é mantido. O CFO revelou ainda ainda que dois anúncios relevantes deverão ser feitos pelo segmento CSU ContactCenter em março: a implementação de um cliente atual relevante e um novo <a class="select" target="_blank" href="/assuntos/contrato" >contrato</a> com um grande cliente, que está em fase de fechamento. "São operações que têm relevância na base instalada e mostra uma reversão da perda de 'tamanho' em 2016", disse o diretor, referindo-se ao término das operações de adquirência do Banrisul (<a href="/BRSR6" target="_blank">BRSR6</a>), que aconteceu em junho mas continuou afetando negativamente os indicadores operacionais da companhia. 

Às 11h55 (horário de Brasília), as ações da CardSystem recuavam 1,48%, a R$ 11,33, após chegarem a subir 11,30% na máxima do dia. Em 2017, a alta chega a 131,22%.

Efeito Banrisul ofuscado pela eficiência

Líder no mercado brasileiro de prestação de serviços de alta tecnologia voltados ao consumo, relacionamento com clientes, processamento e transações eletrônicas, a CSU fechou o 4º trimestre de 2016 com receita líquida de R$ 123,7 milhões, número 2,8% menor que o visto no mesmo período de 2015. Já o Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) cresceu 10% na mesma base comparativa, para R$ 21,8 milhões, enquanto o lucro líquido saltou 48,1%, para R$ 11 milhões - em 2016, o lucro acumulado foi de R$ 34,9 milhões, alta de 83,6% ante 2015.
Segundo explicou Leite, o 4º trimestre já costuma ser mais forte para a CSU por conta de uma sazonalidade específica, que é a declaração de JCP (Juros sobre Capital Próprio), que determina um benefício fiscal que impacta a última linha do resultado da empresa - ou seja, a comparação entre o 3ºe o 4º trimestre fica defasada. Contudo, pela forte expansão de 48% em relação aos últimos três meses de 2015, fica evidente a evolução estrutural do resultado, exalta o CFO. Dentre os pontos positivos relatados por ele estão o fortalecimento das 4 diferentes áreas de negócios da CSU - o que tem mitigado a dependência operacional da empresa - e também a boa performance do carro-chefe da empresa, que é a área de pagamentos.

Mesmo com a saída do Banrisul em junho, o resultado entregue ofuscou esse efeito", disse Leite. A partir de 1º de julho de 2016, o banco estatal do Rio Grande do Sul decidiu  ele mesmo prestar serviço de adquirência - o serviço de emissores continua sendo prestado pela CSU, mas o restante ficou com o Banrisul. Contudo, mesmo com uma redução de resultado pela saída de um cliente importante. Contudo, a agilidade da companhia em se mobilizar e a política de redução de custos e despesas ofuscaram esse efeito e fizeram a empresa se equilibrar, explicam os diretores.

Desalavancagem nos deixou até "inadequados"

A dívida líquida da CSU fechou 2016 em R$ 45 milhões, queda de 6,4% ante 2015. Com o crescimento de 30% do Ebitda anual no mesmo período, a relação "Dívida Líquida/Ebitda" da empresa caiu de 0,7x para 0,5x, número que ficou até "inadequado" para a estrutura de capital da companhia, explica o CFO. "Estávamos com uma alavancagem muito boa, agora ela está inadequada, está muito baixa". Esse foi um dos motivos para o forte investimento feito pela empresa nos últimos três meses do ano - o capex (investimentos em bens de capital) duplicou tanto na comparação entre os 4º trimestres quanto no acumulado em 12 entre 2015 e 2016. "Aproveitamos a geração de caixa operacional e redução da alavancagem financeira para acelerar o implemento de capex estratégicos", complementa.

Um investimento foi feito na unidade CardSystem, referente à contratação de novos elementos e características à plataforma de pagamentos. "Passamos a ter muito mais condições favoráveis em termos de processamento de cartões. Aproveitamos esse momento para fazer uma negociação e foi bastante satisfatório este investimento”, explica.

Liquidez, dividendos e alta das ações: a lua de mel com a Bolsa continuará

No começo de março, as ações da CSU CardSystem chegaram a valer R$ 14,50, valor 270% superior aos quase R$ 3,80 que elas valiam em novembro do ano passado - 12 meses atrás, CARD3 era cotada a R$ 2,30 a unidade na Bolsa -, conseguindo dessa forma cada vez mais "enterrar" um passado difícil na Bovespa. Entre o IPO (Oferta Pública Inicial), em maio de 2006, e março de 2014, a empresa acumulou mais de 90% de perda de valor de mercado. Duas perdas de clientes importantes marcantes essa época sombria: a Caixa Econômica Federal em 2006 e o HSBC em 2013. Embora o Banrisul seja bem menor que os outros dois bancos, a resiliência apresentada pela CSU em 2016 mostra que a dependência de um determinado cliente em seus resultados operacionais pode ter ficado para trás.

Além do "turnaround" operacional, outros dois eventos que aconteceram em 2016 ajudaram a companhia a entrar nesta lua de mel com o mercado. O primeiro foi a saída de um grande investidor da sua composição acionária, a SulAmérica Investimentos, que chegou a deter 17% das ações da empresa mas foi diminuindo consideravelmente essa quantia, tendo anunciado em fevereiro que passou a deter menos de 5% das CARD3 disponíveis no mercado - o que lhe tira a obrigação de comunicar a Comissão de Valores Mobiliários sobre movimentos feitos com ações da companhia. Embora a saída de um investidor grande possa trazer uma pressão vendedora nas ações, no caso da CSU o efeito foi o oposto: a empresa passou a ter mais papéis disponíveis. "A saída deste investidor possibilitou aumentar a liquidez do papel em Bolsa", disse Leite.

Explicando em números: a ação CARD3 fechou 2016 com tendo um giro médio diário pouco abaixo de R$ 500 mil na Bolsa (cálculo feito com base nos 21 pregões anteriores). Em fevereiro, esse número saltou para R$ 5 milhões, e hoje já chega na casa dos R$ 10 milhões/dia em média. Nos 4 dias desta semana, o giro financeiro da ação ficou entre R$ 24 e R$ 30 milhões em todas as sessões.
O segundo evento foi a distribuição de proventos: em 21 de dezembro, a CSU anunciou um JCP na casa dos R$ 0,30 por ação, o que representava um "yield" (valor do provento/preço da ação) de quase 10% - de lá pra cá, a empresa chegou a triplicar de valor na Bolsa. Complementar a CSU, os diretores contaram que o conselho de administração aprovou uma proposta de dividendos complementares para que seja atingido um "dividend payout" (percentual do lucro líquido que será distribuído em dividendos) de 40% em 2016 - os acionistas votarão essa proposta em abril.

"É importante esse momento novo de relação que a empresa está tendo com o mercado de capitais desde 2016. Nossa liquidez aumentou bastante e anunciamos uma alta remuneração aos acionistas, o que tem nos ajudado a ter uma forte valorização nas ações", disse o CFO. Além dos investidores, muitos analistas de investimentos têm procurado a empresa nos últimos dois anos, o que ajuda a popularizar a ação aos investidores.

"2016 não marcou um fim do ciclo. Temos tudo para acreditar que teremos crescimento em 2017", disse Leite. A empresa fará um call com o mercado às 11h (horário de Brasília).

Créditos: InfoMoney